Foto de um homem olhando para um relatório impresso em cima da mesa. Essa imagem ilustra o artigo sobre a raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo do Psicanalista Homero Mônaco.

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo, já parou para pensar?

Alguém da sua equipe entregou, pela terceira vez seguida, um relatório abaixo do que você tinha pedido. Você sentiu uma raiva desproporcional ao tamanho real do erro, algo que passou longe de simples frustração profissional e chegou perto de um incômodo que durou o resto do seu dia inteiro, atravessando reuniões, ligações e até o seu jantar em casa naquela noite. Na semana seguinte, uma reunião que a resolução podia ser com apenas um e-mail de três linhas consumiu duas horas da sua agenda, e você saiu de lá com uma irritação que também não parecia proporcional ao inconveniente real que aquilo representava para você. Você já pensou, que essa raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo.

Você já percebeu esse padrão antes. Aprendeu a se disciplinar, respira antes de responder, sai da sala antes de dizer o que realmente pensa naquele momento de maior tensão. Essas estratégias funcionam, no sentido de que evitam a explosão visível diante de outras pessoas. Mas a sensação de raiva continua ali, por baixo, esperando a próxima abertura para voltar a se manifestar, sempre com a mesma desproporção entre o que aconteceu e o tanto que você sentiu diante daquilo.

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo, uma hipótese desconfortável, mas que explica com mais precisão do que qualquer culpa nas circunstâncias externas o padrão de reações desproporcionais que se repete na sua vida com uma regularidade que já deveria ter chamado a sua atenção antes. Este artigo desenvolve por que a sua raiva raramente tem relação direta com o que a provocou, o que a sua amígdala faz nesses momentos, e o que a psicanálise chama esse processo de redirecionamento afetivo que sustenta esse padrão há tanto tempo.

O que você vai encontrar neste artigo?

  • Por que raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo, mesmo quando a causa parece clara
  • O que a sua amígdala faz antes mesmo que o seu pensamento consiga entrar em ação
  • Para onde vai a raiva que não encontra seu alvo real
  • Por que a raiva de si mesmo costuma ser uma das mais difíceis de reconhecer
  • Por que essa irritação desproporcional no trabalho se repete com pessoas específicas
  • O que muda quando você identifica com quem, ou com o quê, você realmente está com raiva

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo, mesmo quando a causa parece clara

Existe uma armadilha comum na hora de você interpretar reações emocionais desproporcionais, a de aceitar como explicação suficiente aquilo que está mais visível no momento. O relatório mal feito, a reunião improdutiva, a pessoa que deveria saber e não sabe, todos esses eventos parecem, à primeira vista, causa suficiente para a raiva que você sentiu. O problema é que a intensidade dessa raiva, muitas vezes, não corresponde ao tamanho real do evento que a provocou, e essa desproporção costuma ser o primeiro sinal, ainda que sutil, de que existe algo mais acontecendo por trás daquela reação específica.

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo justamente porque essa desproporção é o sinal mais claro de que algo além do evento imediato está sendo processado dentro de você, mesmo sem você perceber conscientemente esse processamento paralelo acontecendo. Quando a sua reação é maior do que a situação justifica, vale a pena perguntar se aquilo que está diante de você é, de fato, a causa real, ou apenas o gatilho mais disponível para uma raiva sua que já existia antes, procurando um caminho de saída que finalmente encontrou uma abertura conveniente.

Como isso aparece no seu cotidiano?

Você pode notar raiva intensa diante de erros alheios pequenos, seguida de arrependimento pela desproporção da própria reação, poucos minutos depois de já ter reagido daquele jeito diante de outras pessoas. Pode perceber que certas pessoas específicas, muitas vezes sem relação direta com o motivo da sua irritação original, se tornam alvos recorrentes de uma raiva que, no fundo, não parece ser exatamente sobre elas nem sobre o que elas fizeram naquele momento específico. Ou pode notar que a sua raiva aparece com mais força em dias ou situações que remetem, de alguma forma indireta, a decisões suas que você ainda não aceitou totalmente, mesmo que já tenham acontecido há bastante tempo. São variações da mesma dinâmica, a sua raiva encontrando um alvo externo mais acessível do que a fonte real que a originou lá no início.

O que a sua amígdala faz antes que o seu pensamento consiga agir?

A sua amígdala, estrutura central no seu processamento emocional e na sua resposta a ameaças, não distingue com precisão a fonte real do seu desconforto de um estímulo que apenas a aciona por associação. Quando algo no seu ambiente presente ativa um padrão associado a uma experiência anterior de frustração ou impotência sua, a resposta fisiológica se instala antes que o seu córtex pré-frontal consiga processar, com clareza, o que está de fato acontecendo naquele momento específico diante de você.

Você reage antes de pensar. E quando finalmente pensa, a reação já aconteceu, muitas vezes desproporcional ao que a provocou de forma imediata e visível para quem estava ao seu redor naquele instante. O que você chama de perder o controle é, neurologicamente, o seu sistema funcionando exatamente como Joseph LeDoux descreve em seu trabalho sobre o cérebro emocional, priorizando velocidade de resposta sobre precisão de análise diante de qualquer sinal reconhecido, mesmo que de forma equivocada, como ameaça potencial real, mecanismo descrito por Joseph LeDoux em seu trabalho sobre o cérebro emocional30963-6).

Por que a rapidez dessa resposta impede a sua avaliação consciente?

Essa velocidade de resposta, embora útil em situações de perigo real e imediato, se torna um problema quando o gatilho não representa, de fato, nenhuma ameaça concreta, apenas um lembrete inconsciente de outra situação, de outra pessoa, de outro momento da sua história em que você sentiu algo parecido e não conseguiu processar aquilo adequadamente na época em que aconteceu.

Para onde vai a raiva que não encontra o seu alvo real

Se a sua amígdala explica a mecânica dessa resposta automática, existe uma pergunta mais funda por trás dela. Para onde vai a raiva que não encontra o alvo que de fato a provocou originalmente? Ela desaparece sozinha, ou continua circulando dentro de você, esperando qualquer abertura disponível para finalmente se expressar de alguma forma, mesmo que direcionada para o lugar errado?

A raiva que você sente pode estar acumulada há muito tempo, relacionada a outra pessoa ou situação bem anterior aos acontecimentos do seu presente imediato. E você, em algum nível, já sabe disso, mesmo sem ter formulado essa consciência de forma explícita e verbalizada para si mesmo. O que sustenta esse mecanismo é a sua dificuldade real de entrar em contato com aquilo que verdadeiramente causa a sua raiva, seja uma situação que você não pode mudar, seja uma pessoa com quem o confronto parece impossível ou arriscado demais, seja, em muitos casos, você mesmo e as suas próprias escolhas passadas.

A psicanálise chama isso de deslocamento, o qual Freud descreveu em A Interpretação dos Sonhos, o afeto que não encontra o seu objeto ou causa real, porque esse objeto é perturbador demais ou simplesmente inacessível, a pessoa o desloca para outra pessoa ou situação mais comum, que oferece um risco menor do que confrontar diretamente a fonte original daquela raiva acumulada ao longo do tempo.

Se a amígdala explica por que a resposta acontece antes do seu processamento consciente, o deslocamento explica por que essa resposta, especificamente, se direciona para um alvo que não é a fonte real da sua raiva, mas que oferece a vantagem prática de estar disponível e acessível no momento em que a descarga emocional precisa acontecer.

Por que a raiva de si mesmo é uma das mais difíceis de reconhecer?

Existe uma raiva sua de si mesmo que está entre as mais difíceis de reconhecer, a raiva de ter aceitado o que você não queria aceitar, de ter ficado calado quando precisava falar algo importante, de ter permanecido em um lugar que já não fazia sentido por mais tempo do que você gostaria de admitir para si mesmo. Essa raiva não encontra saída fácil em direção a você mesmo, então busca uma saída disponível em outro lugar mais conveniente e menos ameaçador para a sua própria autoimagem.

Reconhecer raiva de si mesmo exige admitir escolhas ou omissões que você preferiria não confrontar diretamente, porque isso implicaria reconhecer alguma responsabilidade sua na situação, em vez de atribuir tudo a fatores externos completamente fora do seu controle. É mais fácil, do ponto de vista da sua autoimagem, atribuir a irritação a um colega que entregou mal um relatório do que reconhecer que parte dessa raiva pode estar relacionada a uma decisão sua que você aceitou sem realmente querer, silenciando naquele momento uma objeção que agora resurge disfarçada de outra coisa.

O que a sua raiva desproporcional está tentando dizer?

A raiva que aparece nos lugares errados está sinalizando algo seu que ainda não encontrou espaço na consciência para que haja elaboração na situação correta, com a pessoa certa, no momento adequado. Ela não é, em si, o problema a se eliminar através de mais técnicas de controle emocional. É, muitas vezes, o único sinal honesto que ainda consegue atravessar a armadura de autocontrole que você construiu ao longo dos anos de experiência profissional e pessoal.

Foto de mão de um homem apoiada em mesa de reunião ao lado de um relatório impresso que também está em cima da mesa. Essa imagem ilustra o artigo sobre a raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo do Psicanalista Homero Mônaco.

Por que essa irritação desproporcional no trabalho se repete com pessoas específicas?

Um padrão que costuma chamar a atenção, quando você observa com mais cuidado, é a repetição da sua irritação desproporcional especificamente com determinadas pessoas, enquanto outras, em situações semelhantes, raramente provocam a mesma intensidade de reação em você. Isso não é coincidência aleatória. Certas características, certos tons de voz, certos padrões de comportamento em quem está diante de você podem ativar, de forma inconsciente, associações com pessoas ou situações do seu passado que carregam carga emocional não resolvida ainda dentro de você.

Você pode notar, ao prestar atenção, que a pessoa que mais frequentemente dispara essa raiva desproporcional em você compartilha algum traço específico com alguém importante da sua história pessoal, um jeito de falar, uma postura corporal, um padrão de comportamento que remete, ainda que remotamente, a uma figura de autoridade ou a uma relação difícil do seu passado que você nunca processou completamente através da palavra.

O papel da repetição involuntária nesse reconhecimento de padrão

Reconhecer esse padrão de repetição, mesmo que de forma parcial e ainda incompleta, já começa a abrir espaço para você distinguir entre a raiva genuína provocada pela situação presente e a raiva antiga que apenas encontrou, naquela pessoa específica, uma superfície conveniente para se manifestar novamente, décadas depois do conflito original ter acontecido de verdade.

O custo relacional de nunca identificar a fonte real da sua raiva

Existe um custo cumulativo real quando você continua descarregando raiva desproporcional em alvos que não são a fonte verdadeira do seu incômodo. Cada episódio desses, por menor que pareça isoladamente, deixa uma marca na relação com a pessoa que recebeu aquela descarga, mesmo quando ela mesma não entende completamente o que aconteceu ou por que a sua reação foi tão intensa diante de algo aparentemente pequeno. Ao longo do tempo, esses episódios acumulados podem corroer a confiança que as pessoas têm em previsibilidade emocional sua, mesmo que você seja, na maior parte do tempo, uma pessoa equilibrada e razoável no trato cotidiano com quem está ao seu redor.

Colegas de trabalho podem começar a ficar mais cautelosos ao seu redor, medindo cada palavra antes de falar com você, não porque você seja, de fato, uma pessoa difícil, mas porque aprenderam, através da experiência repetida, que certos assuntos ou certas situações podem disparar uma reação desproporcional que eles não sabem prever com precisão. Isso cria uma distância relacional que você talvez nem perceba conscientemente, mas que impacta a qualidade das suas relações profissionais e pessoais de forma real e mensurável ao longo do tempo.

Por que reconhecer o padrão beneficia também quem está ao seu redor?

Reconhecer esse padrão de deslocamento não beneficia apenas você, mas também as pessoas que convivem regularmente ao seu redor, que deixam de precisar absorver descargas emocionais que, na verdade, nunca tiveram relação real com elas ou com o que fizeram. Esse reconhecimento, por mais desconfortável que seja no início, tende a produzir relações mais estáveis e mais previsíveis, tanto para você quanto para quem compartilha o seu dia a dia profissional e pessoal.

Como diferenciar raiva legítima de raiva deslocada na prática?

Uma pergunta prática que pode ajudar você a fazer essa distinção no calor do momento é perguntar, silenciosamente, se a intensidade da sua reação seria a mesma caso a mesma situação tivesse acontecido com uma pessoa completamente diferente, sem nenhuma história prévia com você. Se a resposta for não, se você reconhece que reagiria de forma mais branda com outra pessoa, isso é um indicativo forte de que parte significativa dessa raiva está relacionada a algo específico daquela pessoa ou daquele contexto, não apenas ao evento em si que serviu de gatilho imediato.

Outra pergunta útil é observar se a sua raiva permanece com a mesma intensidade horas depois do evento, ou se ela se dissipa rapidamente assim que a situação imediata é resolvida. Raiva legítima, proporcional à situação, costuma se resolver quando o problema é resolvido. Raiva deslocada tende a persistir, muitas vezes se transformando em ruminação mental sobre o episódio, revisitado repetidas vezes ao longo do dia sem que essa revisão traga nenhum alívio real ou nova compreensão sobre o que de fato aconteceu. Essas duas perguntas, simples na aparência, costumam revelar com bastante clareza se você está diante de uma reação proporcional e legítima, ou de um episódio de deslocamento que merece investigação mais cuidadosa em um contexto apropriado para esse tipo de trabalho interno.

Vale registrar que nenhuma dessas duas perguntas substitui um processo de elaboração mais profundo, elas funcionam apenas como um primeiro filtro rápido, útil no momento imediato, mas que não dispensa a investigação mais cuidadosa sobre a origem real da raiva deslocada, quando esse padrão se mostra recorrente e não isolado.

O que muda quando você identifica com quem realmente está com raiva?

O que se transforma, quando esse padrão passa a ser elaborado com mais cuidado e atenção, não é suprimir ainda mais a expressão externa da sua raiva, o que apenas reforçaria o próprio deslocamento e adiaria ainda mais o confronto necessário com a fonte real. É começar a se perguntar, no momento em que a raiva desproporcional aparece, de quem ou com o quê você está realmente com raiva, qual é a situação que você aceitou e ainda carrega sem ter elaborado o que sentiu naquele momento original.

Esse trabalho se aprofunda de forma mais consistente em análise, no mesmo espaço que já toca de perto você não conseguir se abrir mesmo com quem ama, onde existe espaço protegido para investigar a fonte real da sua raiva deslocada, sem a pressa e sem o julgamento que o dia a dia profissional normalmente impõe sobre qualquer processo de autoconhecimento mais lento e cuidadoso.

Quando esse deslocamento aparece até com quem você mais gosta?

Um aspecto pouco discutido é que raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo mesmo quando o alvo externo é alguém de quem você genuinamente gosta e respeita, o que costuma gerar uma culpa adicional depois do episódio, precisamente porque a intensidade da reação parece ainda mais injustificada quando direcionada a alguém que não fez nada de especialmente grave para merecer aquilo.

Isso muitas vezes é, justamente, o sinal mais claro de que o verdadeiro alvo da sua raiva está em outro lugar completamente diferente, porque pessoas que você ama costumam ser, paradoxalmente, as mais seguras para receber uma descarga emocional que não tem relação real com elas, precisamente porque o vínculo é forte o suficiente para sobreviver a esse tipo de episódio isolado sem se romper completamente.

Conclusão

De quem ou com o quê você está realmente com raiva? Qual é a situação que você aceitou e ainda carrega sem ter elaborado o que sentiu naquele momento específico da sua história?

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo, uma possibilidade que raramente é considerada porque o alvo externo costuma parecer causa suficiente para explicar a intensidade que você sentiu diante daquela situação específica.

E se a sua raiva não fosse o problema a ser eliminado, mas o único sinal honesto que ainda consegue atravessar tudo que você aprendeu a controlar ao longo dos anos?

Reflita sobre isso.

Perguntas frequentes sobre raiva dos outros ser raiva de si mesmo

Por que sinto raiva desproporcional diante de erros pequenos de outras pessoas?

Raiva que você sente dos outros pode ser raiva de si mesmo quando o evento externo funciona apenas como gatilho para um afeto que já existia antes, deslocado de uma fonte real perturbadora demais para ser confrontada diretamente.

O que é deslocamento na psicanálise?

Deslocamento é o mecanismo psíquico pelo qual um afeto que não encontra seu objeto ou causa real, por ser perturbador demais ou inacessível, é redirecionado para outra pessoa ou situação que oferece um risco menor de confronto direto.

Como saber se minha raiva é sobre a situação atual ou sobre outra coisa?

Um indicativo importante é a desproporção entre a intensidade da sua reação e o tamanho real do evento que a provocou. Quando a raiva parece maior do que a situação justifica, vale investigar se existe uma fonte anterior sendo redirecionada.

Por que técnicas de controle emocional não resolvem minha raiva de verdade?

Técnicas de controle ajudam a conter a expressão externa da raiva, mas raramente resolvem o problema na origem, porque o conteúdo real que sustenta essa raiva continua ali, esperando a próxima oportunidade para se manifestar.

Terapia ajuda a identificar a origem real da raiva deslocada?

Terapia oferece espaço protegido para investigar a fonte real da sua raiva, muitas vezes ligada a situações ou pessoas anteriores que não puderam ser confrontadas diretamente.

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SOBRE O AUTOR
Foto de homem careca, olhos castanhos claros, de barba escura. A foto é do Psicanalista Homero Mônaco, que é o psicanalista que escreve para o blog do Site A Sessão de Terapia e que atende também como psicanalista online.

Psicanalista, formado também em Comunicação e Marketing com MBA em Gestão Empresarial. Experiência Internacional e apto a atender em Português e Espanhol

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